PIB em construção
Flávia Oliveira e Luciana Rodrigues
O lançamento de imóveis, as vendas
nas lojas de material e a expansão do crédito habitacional
mostram, neste fim de ano, a retomada na construção
civil constatada pelo IBGE nos números do Produto Interno
Bruto (PIB, soma de todas as riquezas geradas no país) do
terceiro trimestre, quando o setor cresceu 11,6% em relação
ao mesmo período do ano anterior. A recuperação
do segmento, dizem os analistas, é um ótimo sinal
para as perspectivas de crescimento da economia em 2005.
Na indústria, a produção
de insumos para construção civil cresceu 13,76% em
agosto e 9,62% em setembro. As lojas de material de construção
esperam fechar o segundo semestre com um aumento de 7% nas vendas,
depois de terem ficado no zero a zero nos seis primeiros meses do
ano. O lançamento de imóveis este ano já supera
em 51% o desempenho de 2003 e a concessão de financiamentos
imobiliários, até outubro, cresceu 34%.
Ipea e UFRJ vêem reação
consistente
Os economistas lembram que, no ano passado, a
construção civil teve um desempenho muito ruim e,
este ano, o primeiro semestre foi de estagnação. Em
que pese a base fraca de comparação, a atual retomada
do setor é imprescindível para garantir um crescimento
econômico sustentado. Em primeiro lugar, porque a construção
civil é um grande gerador de empregos. Responde por mais
de 60% da chamada formação bruta de capital fixa do
país, ou seja, dos investimentos feitos para ampliar a capacidade
produtiva da economia brasileira.
Mérida Medina, do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), lembra que a expansão recente
da construção civil é ainda mais significativa
quando se leva em conta a recente revisão nos números
do PIB de 2003, feita esta semana pelo IBGE. Em vez da queda de
8,6% anteriormente calculada, o setor recuou 5,2% no ano passado.
Com isso, a expansão de 11,6% no trimestre passado ocorreu
sobre uma base menos deprimida e, portanto, sugere uma recuperação
mais consistente.
Rafael Barroso, economista do Grupo de Conjuntura
da UFRJ, lembra que a produção de máquinas
e equipamentos — que, junto com a construção
civil, compõe os investimentos do país — vinha
crescendo a um ritmo mais acelerado: a compra desses itens no Brasil
aumentou 20% até setembro. Mas, nos últimos meses,
a construção civil reagiu.
— Isso melhora as perspectivas para os investimentos.
Barroso explica que as condições
mais favoráveis de crédito — fruto dos cortes
nas taxas básicas de juros realizados até abril, mas
que só surtiram efeito agora — ajudaram no chamado
consumo formiguinha, ou seja, de famílias que realizam obras
e reformas por conta própria.
Além disso, acrescenta, medidas adotadas
pelo governo a partir de agosto deram um estímulo aos empreendimentos
imobiliários. A principal delas foi a criação
do patrimônio de afetação, regra que exige uma
contabilidade separada para cada prédio levantado por uma
incorporadora e que, além de dar mais segurança aos
compradores, incentivou a concessão de financiamento às
construtoras pelos bancos.
Segundo a Associação Brasileira
das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança
(Abecip), o volume de recursos destinado a financiar imóveis
somou R$ 2,26 bilhões este ano, até outubro, contra
R$ 1,68 bilhão no mesmo período de 2003.
A oferta de crédito também ajudou
a aumentar as vendas no varejo. Cláudio Conz, presidente
da Associação Nacional dos Comerciantes de Material
de Construção (Anamaco), conta que, além da
Caixa Econômica, o Banco do Brasil entrou neste mercado em
2004, oferecendo financiamento direto à compra de produtos.
— O Bradesco também lançou
uma linha de crédito desse tipo e, no ano que vem, outros
bancos comerciais devem entrar no varejo da construção
civil — diz Conz.
Recuperação deve atravessar
2005
A Anamaco estima que vai fechar o ano com uma
alta de 3% nas vendas, ainda incapaz de compensar a queda de 4%
em 2003, mas já com uma boa trajetória para 2005.
No ano que vem, a previsão é dobrar as vendas.
Os produtores de cimento também devem ter
um ano melhor em 2005. As estatísticas do Sindicato Nacional
da Indústria do Cimento (Snic) mostram que, de julho a setembro,
o consumo cresceu 3,2% em relação ao mesmo período
de 2003.
Em outubro, o consumo médio diário
subiu 3,4% frente ao mesmo período do ano passado, somando
2,87 milhões de toneladas no mês.
— O desempenho do setor está mantendo
a tendência de recuperação, que começou
no segundo trimestre — diz o economista Marcos Valpasso, da
consultoria Galanto, que presta serviços ao Snic.
No ano passado, o consumo de cimento caiu 11,29%
em relação a 2002. O desempenho negativo se estendeu
pelo primeiro trimestre de 2004, quando houve recuo de 1,92% em
relação ao mesmo período do ano anterior. A
reação só teve início em abril, mas
Valpasso afirma, que por enquanto, o que está impulsionando
a construção é a retomada dos investimentos
— ou seja, o setor empresarial. O consumo formiga, segundo
o economista, deve se intensificar no início do próximo
ano, com a recomposição mais consistente da massa
salarial:
— O salto da construção não
foi fruto do ganho de renda. Por isso, ainda há espaço
para o setor crescer. É isso que esperamos para 2005 —
afirma Valpasso. |