Gestão patrimonial é tão importante quanto orçamentária
Quando o assunto é
finanças pessoais, a maior parte das discussões se
concentra na gestão do orçamento, e o que é
preciso fazer para garantir o equilíbrio ao final do mês.
Em parte, isso reflete o fato de que no Brasil ainda são
muito poucos aqueles que conseguem poupar o suficiente ao final
do mês para investir, e, assim, juntar um patrimônio.
Ainda que a gestão orçamentária deva ser prioritária
em um país onde a poupança nacional ainda representa
uma parcela pequena do PIB (Produto Interno Bruto), para aqueles
que possuem bens e investimentos também é importante
dedicar algum tempo à gestão patrimonial. E, para
tanto, o primeiro passo é efetivamente estimar o seu patrimônio,
o quanto você efetivamente tem em bens e aplicações.
Mas, quando falamos de gestão do patrimônio, isso envolve
mais do que uma estimativa "por cima" do quanto você
tem, é preciso analisar com cuidado, e quando possível,
tentar estimar o valor de mercado dos seus bens e investimentos.
Esta análise permite, por exemplo, constatar se você
está com uma parcela muito grande do seu patrimônio
direcionada para um único tipo de aplicação.
Check-up da sua estratégia de investimento
A análise do orçamento permite que você verifique
para onde está indo seu dinheiro, em termos de despesas,
e, assim, permite que você reveja seus gastos, adotando, quando
preciso, uma mudança nos hábitos de consumo. De maneira
semelhante, a análise de patrimônio serve como check-up
para a sua estratégia de alocação de investimentos.
Um erro comum entre os investidores, mesmo aqueles que têm
uma boa quantia investida, é concentrar demais suas aplicações.
Para piorar, muitas vezes a concentração acontece
em aplicações de baixa liquidez, como é o caso
do investimento em imóveis, o que pode colocar o investidor
em dificuldades se precisar arcar com despesas inesperadas.
Lembre-se que é a gestão correta do seu patrimônio,
da forma como você investe seus recursos, que irá assegurar,
ou não, que você terá recursos suficientes para
quando se aposentar, por exemplo.
Não se esqueça das dívidas!
Muitas pessoas se enganam ao acreditar que por terem uma casa menor
e por dirigirem um carro mais antigo do que seus vizinhos, então
certamente gozam de um patrimônio menor, e, portanto, precisam
se esforçar mais.
Pois, bem, isso nem sempre é verdade! Já que o cálculo
do seu patrimônio deve incluir não apenas os bens que
possui, mas igualmente importante, as dívidas que ainda não
quitou. É bem verdade que muitas vezes o cálculo acaba
decepcionando algumas pessoas, que acabam constatando que, uma vez
deduzidas as dívidas, elas não gozam de uma situação
financeira tão confortável como imaginavam.
Por mais decepcionante que seja a conclusão, ela é
de fundamental importância para o seu planejamento financeiro.
Se você ainda não juntou tudo o que pensava, ou julga
necessário para garantir um futuro tranqüilo, então
esta na hora de rever sua estratégia de investimento, o que
muitas vezes, implica em voltar à gestão do orçamento,
e cortar alguns gastos extras para acumular reservas mais rapidamente.
Quanto antes melhor
Em geral, recomenda-se que o cálculo do patrimônio
seja revisto anualmente, pois, em caso de necessidade de ajuste,
quanto antes ele for feito, menor terá que ser sua magnitude.
Em outras palavras, se você perceber que não está
economizando tanto quanto pensava, mas ainda faltam 30 anos para
se aposentar, então um pequeno corte de gastos pode permitir
que alcance seu objetivo. Porém, se faltarem apenas cinco
anos, o ajuste necessário pode ser bem maior.
Para quem se desanima com o exercício, vale lembrar que,
mais importante do que o resultado obtido, ou seja, o cálculo
do seu patrimônio é o processo em si. É bem
verdade que o esforço envolvido, pelo menos na primeira vez,
pode ser grande demais, mas ele permite que você analise e,
se preciso, reveja freqüentemente a sua estratégia de
investimento, o que é extremamente positivo para as suas
finanças pessoais.
Na ponta do lápis
Da mesma forma que a elaboração de um orçamento,
não existe uma regra única para se elaborar uma planilha
de gestão patrimonial. Planilhas muito detalhadas exigem
muito tempo, e muito provavelmente acabaram sendo abandonadas. Por
outro lado, agrupar demais os dados pode não trazer nenhum
benefício adicional, pois é provável que você
já tenha "na sua cabeça" uma idéia
de onde seu dinheiro está aplicado.
Assim sendo é preciso encontrar um meio termo. De forma geral,
é recomendável que você separe a informações
em três categorias distintas, como detalhado abaixo:
• Ativos líquidos
Neste grupo você deve incluir os bens, propriedades ou aplicações
que possui e que podem ser vendidas rapidamente, em questão
de dias, como por exemplo, quotas em fundos de investimento, CDB,
ações de empresas listadas no mercado e saldo de conta
corrente, obviamente não incluindo o limite do cheque especial!
• Ativos menos líquidos
Devem fazer parte deste grupo não só os bens, propriedades
e aplicações que você não consegue vender
em poucos dias, como os imóveis, ações de empresas
não listadas, como também aquelas, que, mesmo podendo
ser vendidas no curto prazo, podem implicar em custos adicionais,
como é o caso, por exemplo, dos planos de previdência,
que não devem ser sacados no curto prazo.
• Dívidas
Em geral recomenda-se que as dívidas sejam agrupadas de acordo
com o seu prazo. Assim, as dívidas que financiam o consumo,
como a de cartão de crédito, cheque especial, ou outras
formas de financiamento, com prazo de quitação inferior
a 24 meses, devem ser colocadas na categoria de vencimento imediato.
Já dívidas cuja quitação é mais
longa, como os financiamentos imobiliários, em geral, podem
ser separadas, pois além dos encargos serem menores, podem
ser quitadas em um prazo mais longo. Essa segmentação
permite que, caso tenha uma folga no caixa, estabeleça uma
linha de prioridade para quitação antecipada.
O seu patrimônio será calculado como sendo a diferença
entre o total de ativos e o total de dívidas que possui.
Ainda que algumas pessoas incluam nesta categoria bens pessoais,
como jóias, e outros tipos de bens, como quadros, recomendamos
cautela na inclusão destes itens, pois em geral o que se
constata é uma grande discrepância entre o valor de
compra e o de venda destes bens.
Endividado demais?
Além de uma idéia mais clara do seu patrimônio,
e dos ajustes que você precisa fazer para alcançar
o seu objetivo de longo prazo, que é o de se aposentar com
tranqüilidade, o exercício acima permite, por exemplo,
que você estime se já juntou o suficiente para emergências,
a chamada reserva de emergência.
Essa reserva é calculada como sendo a diferença entre
os ativos líquidos e as dívidas de curto prazo. Em
geral, recomenda-se que seja suficiente para arcar com algo entre
seis a doze meses de despesas correntes. Portanto, se você
gasta R$ 500 por mês, seria importante guardar pelo menos
R$ 3 mil para o caso de alguma emergência.
Os números acima também permitem que você calcule
se está excessivamente endividado. Para tanto, calcule a
relação entre dívidas e ativos. Caso a relação
já tenha superado 50%, vale uma análise detalhada
da sua estratégia e da real necessidade destas dívidas.
Estabeleça metas e controle-se
Finalmente, é preciso estabelecer um objetivo e verificar
anualmente se você está se aproximando, ou afastando
dele. Ainda que não existam regras fixas para tal, assumindo
que você queira manter seu padrão de vida ao se aposentar,
e que, pretende parar de trabalhar ao 70 anos, então, com
base nas expectativas de vida atuais, pode-se afirmar que seria
importante garantir os gastos para pelo menos outros 15 anos de
sobrevida.
Como é difícil prever como os preços estarão
daqui a tanto tempo, uma reserva adicional, até mesmo para
emergências, sugere que um objetivo razoável poderia
ser juntar até a sua aposentadoria o equivalente a 15 vezes
o que você gasta em um ano. Pode parecer muito, mas a verdade
é que acabamos gastando muito ao nos aposentarmos, e o melhor
é estar preparado para isso.
Por: Fernanda de Lima (InfoMoney)

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