Setor imobiliário dos EUA: entenda os fatores que derrubaram as Bolsas
O temor dos investidores com a saúde financeira de diversas empresas que operam em um segmento do mercado imobiliário norte-americano foi o principal fator por trás da queda nas Bolsas dos EUA na terça-feira (13), que acabou se refletindo na forte baixa do Ibovespa.
Apesar de ser apenas um segmento do mercado norte-americano de financiamento imobiliário, o grupo de empresas que opera no mercado subprime acabou gerando incertezas, afetando, principalmente, os papéis do setor financeiro.
Como funciona este mercado
Um dos propulsores do crescimento do mercado de imóveis norte-americano é o financiamento imobiliário. Assim como em diversos países, instituições financeiras oferecem financiamento de longo prazo para compradores de imóveis que, como contrapartida, cedem os próprios imóveis como garantia para estes empréstimos.
Para obter estes empréstimos, os compradores devem preencher diversos critérios, como renda mínima, depósito de uma parcela da aquisição como entrada, comprometimento de uma parcela máxima de sua renda com pagamentos de juros e outros. Isso poderia limitar este mercado, pois apenas clientes de melhor perfil de crédito poderiam obter estes financiamentos imobiliários.
Mercado subprime
Porém, para atender às necessidades dos clientes que não atendem os critérios tradicionais foi criado um mercado de financiamento imobiliário conhecido como subprime. As instituições financeiras que operam neste mercado aceitam clientes de perfil mais arriscado, cobrando, como contrapartida, juros mais altos.
Deste modo, as hipotecas que resultam deste mercado são mais arriscadas, mas por outro lado, oferecem juros 2 a 3 pontos percentuais maiores que as resultantes do mercado "tradicional", no qual o risco é menor.
Este mercado cresceu rapidamente nos últimos anos, principalmente porque muitas instituições amenizaram os critérios para concessão de financiamento imobiliário, em função da desaceleração da demanda por novas casas registrada no período.
Financiamento no mercado de capitais
Para conceder estes financiamentos, as empresas envolvidas no segmento subprime devem obter recursos, sendo o canal preferido o mercado de capitais. Isso é realizado principalmente junto aos bancos de investimentos, que agregam estas hipotecas e, dentro de um processo de securitização, criam títulos baseados nestas hipotecas, que são vendidos a investidores institucionais norte-americanos.
Considerando as condições favoráveis de liquidez no mercado mundial, este tipo de operação tem registrado crescimento, uma vez que estes títulos, refletindo o lastro de empréstimos a taxas mais altas, oferecem também juros mais altos aos investidores.
Aumento na inadimplência
Neste contexto, a divulgação de dados da Mortgage Bankers Association de que a inadimplência em empréstimos subprime atingiu 13,3%, o maior patamar em quatro anos, intensificou os temores em relação à saúde financeira de muitas empresas que operam neste mercado.
As ações da Accredited Home Lenders Holding caíram 65% nesta terça-feira, enquanto os papéis da New Century Financial Corp deixaram de ser listados na Bolsa de Nova York, após as empresas afirmarem que não conseguirão cumprir as obrigações com os bancos de investimentos.
Com o aumento na inadimplência, os bancos de investimento cortam linhas de crédito, chamadas de warehouse facilities, que permitem o financiamento destas empresas até que as hipotecas atinjam um montante suficiente para as operações de securitização.
Impacto maior nos bancos de investimento
À exceção das empresas diretamente ligadas à concessão de crédito no segmento subprime, o maior impacto negativo nesta terça-feira foi sentido pelas ações de bancos de investimento, principal elo entre o mercado de hipotecas e o mercado de capitais.
As ações do Bear Stearns encerraram o dia em queda de 6,6%, enquanto os papéis da Lehman Brothers caíram 5,94%. Mesmo após ter divulgado resultados bem acima das expectativas do mercado, o Goldman Sachs viu suas ações caírem 1,7%, levando em conta que o banco é o maior financiador da Accredited Home.
O impacto sobre os papéis do setor financeiro não ficou restrito aos bancos de investimentos. Dentre os 30 componentes do índice Dow Jones, as três maiores quedas ficaram com ações do segmento: JP Morgan (-4,38%), American Express (-3,46%) e Citigroup (-3,20%).
Maior percepção de risco
Esta situação acaba aumentando a percepção de risco dos investidores, o que reduz o interesse por ativos de maior risco, como, por exemplo, ações e títulos de renda fixa de mercados emergentes.
Isso explica o maior impacto registrado nas Bolsas de países emergentes. Além da queda de 3,39% do Ibovespa, o índice Merval da Bolsa de Buenos Aires perdeu 3,76%, enquanto a Bolsa do México registrou baixa de 2,46%.
Fonte: InfoMoney
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